O Futuro: um horizonte de possibilidades

Bruce Ledesma Newsletters Leave a Comment

Como pensar, imaginar e construir o futuro ?

Na memória social, a 2ª. Guerra Mundial foi o último acontecimento que abalou intensamente toda a humanidade, trazendo intrinsicamente uma confusão de valores. O período mostrou a necessidade de uma nova forma de encarar o mundo e, nele, o ser humano, o que propiciou o ressurgimento do Existencialismo , e com ele uma nova maneira de ver e interpretar as coisas e dar sentido à existência.
Nessa corrente, o ser humano é central. Talvez em parte porque quaisquer condições materiais tivessem sido dizimadas e pela necessidade absoluta de afirmar a prevalência do ser face à hercúlea tarefa de reconstrução social, praticamente em nível mundial.
Pouquíssimos de nós viveram esse período – na realidade, todos aqueles com menos de 75 anos cresceram e têm vivido em um mundo co-construído pelos sobreviventes e sua descendência a partir do horizonte de possibilidades e das condições materiais que subsistiram após a morte de mais de 40 milhões de pessoas.
Mas por que voltar à 2ª. Guerra Mundial nesse momento? Qual o paralelo possível daquela época com a que estamos vivendo?

A volta da primazia do ser
Nessa época de Covid, experimentamos dificuldades e restrições que, ainda que longe de assemelhar-se à época das guerras em número ou em gênero, proporcionou mudanças significativas em nosso modo de trabalhar e conviver.
Passado o período mais restritivo, o recente, lento e incerto afrouxamento das medidas de controle do convívio social tem provocado sensações bastante semelhantes entre as pessoas. Todas as discussões sobre o trabalho em home office ou o protagonismo das temáticas sobre saúde mental entre outras, trazem para o primeiro plano, novamente, a primazia do humano. Do ponto de vista da materialidade, também os valores foram modificados. A única tecnologia admirada e desejada hoje é a que produz vacinas que garantem a sobrevivência do ser humano.
Mesmo cientes de que o baque na economia dos países está sendo considerável, as discussões que permeiam a mídia e a fala dos leigos atêm-se às possibilidades de sobrevivência do tecido econômico de proximidade e serviços representado pelos pequenos negócios por um lado, e à manutenção ou recuperação da saúde mental do ser humano por outro.

A perda da base construída e a consciência da mudança
Pouco se sabe sobre como será organizado nosso futuro. Nesse período de pouco mais de dois anos, nossas certezas foram questionadas.
A título de exemplo, de início, apostou-se na capacidade das empresas que haviam de alguma forma feito sua transição digital em trabalhar com as equipes à distância sem que houvesse qualquer impacto tanto na produtividade quanto na cultura organizacional. Parte desse otimismo vinha, muito provavelmente, da certeza da brevidade do período. Com a extensão do home office, há dúvidas sobre a produtividade e, principalmente sobre o método para aferi-la e constatou-se certa fragmentação da cultura organizacional anteriormente construída e vivenciada. Novos colaboradores foram contratados já nesse período sem que tenham uma vez sequer encontrado seus pares. Sabemos que o mundo do trabalho deverá ser organizado de outra forma, mas que forma será essa?
Um outro setor bastante emblemático também sobre a mudança do comportamento de empresas e consumidores é o da alimentação. O delivery se impôs e a encomenda de uma refeição, comportamento anteriormente raro ou limitado a certos grupos sociais se impôs, substituindo não necessariamente a culinária doméstica que manteve seu espaço diário, mas as refeições pagas com o ticket fornecido pela empresa ou mesmo, a ida ao restaurante para as grandes refeições de finais de semana em família. Em setembro de 2020, o Valor apontava o crescimento de 30% de restaurantes em sua plataforma nos últimos 4 meses. Para isso, os restaurantes se digitalizaram. Parece provável que uma vez terminado o período de restrições boa parte dos consumidores de refeições por aplicativos mantenham o hábito, recebendo suas “marmitas” nos dias úteis ou desfrutando de uma refeição abundante nos finais de semana sem que outras itens sejam agregados (como a taxa de serviço ou a obrigatoriedade do consumo de bebidas).
Muitas outras áreas da vida social e familiar foram modificadas e novos comportamentos poderão compor o chamado novo normal.

Como pensar, imaginar e construir o futuro?
A consciência da prevalência do ser humano sobre as condições materiais de existência, favorecida nesse momento, não pode e nem deve alimentar a ideia de que o homem estaria acima de todas as coisas e dele somente dependeria o futuro a ser criado.
Simultaneamente, toda projeção humana dá-se dentro dos limites do horizonte de possibilidades, com limites definidos a partir daquilo que se pode pensar, imaginar e projetar em um momento dado e em uma sociedade determinada
Sob essa ótica, o futuro é produto de uma co-construção, é a expressão material de uma dupla atividade humana. Assim, se por um lado, o futuro pode ser considerado como o resultado de um processo econômico e social de trabalho amplo inscrito na economia, por outro lado, o desenho do futuro é o ponto de partida de um processo social de construção que supõe o reconhecimento das necessidades humanas e a atividade de construção de significados com base na materialidade social transformada.
O futuro projetado, definido como ponto de encontro do imaginário com a racionalidade, é uma produção simbólica e, como tal, objeto de uma autonomia própria aos objetos semióticos. Mas essa autonomia formal, não pode, em caso algum, ser incorporada a uma indeterminação social da produção das formas simbólicas.
Há sempre um limite e esse limite é o horizonte de possibilidades definido a partir dos elementos de uma determinada época, donde a necessidade de imergir nas atuais condições materiais seja de trabalho, família ou social, para alicerçar nossas projeções. Deixar de realizar essa imersão, é produzir ficção.

Publicado originalmente em Maio 2021

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