POR UM POUCO MAIS DE IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA

Cristina Panella Colunas, Newsletters Leave a Comment

Publicações BMI – Blue Institute Management

É comum exercemos nossa profissão sem nos perguntarmos mais sobre a contribuição que podemos dar, por meio dela, à discussão de fenômenos sociais em áreas tão diferentes como estudos sobre a liderança, sobre novas ou velhas gerações ou, mesmo, sobre a participação política.

O tema costuma vir à tona nas discussões com colegas de outras áreas. Nessas ocasiões, em vez de recorrer aos clássicos, sempre fundamentais e merecedores de novas leituras, lembro de um livro brilhante com um título não menos instigante – “A Imaginação Sociológica” – de C. Wright Mills (1916-1962), uma crítica cultural das Ciências Sociais onde o autor apresenta uma defesa inteligente da tradição de análise sociológica clássica, com o objetivo de conscientizar, não só os sociólogos, mas a todos os envolvidos, das ligações existentes entre o ambiente social pessoal imediato e o mundo social impessoal que está em sua volta e que colabora para moldar as pessoas.

Mills, sociólogo americano, tinha dificuldade em explicar por que os cientistas sociais norte-americanos ficavam absorvidos pelos levantamentos de opiniões e pesquisas empíricas, numa época em que a liberdade e a razão do Homem estavam em perigo. Com forte influência de Max Weber, Mills defendia uma visão holística de sistemas socioculturais, pensados como interdependentes, com efeitos profundos sobre os valores humanos. Afirmava a importância da perspectiva histórica como parte fundamental do pensamento sociológico. Entre seus principais temas de reflexão, encontravam-se a desigualdade social, o poder das elites, o declínio da classe média, e a relação entre os indivíduos e a sociedade.

Alguma similaridade encontramos com nossos tempos onde presenciamos um certo endeusamento dos dados em detrimento de uma compreensão diacrônica dos fenômenos.

A imaginação sociológica apoia-se no tripé composto pela história, pela biografia e pela estrutura social. Assim, a compreensão da experiência individual necessita, simultaneamente, que o indivíduo seja avaliado dentro de seu tempo, que entenda como a sociedade veio a ser o que é, como se dá o processo de mudança social e como sua história está sendo feita. O número e variedade dessas modificações estruturais aumentam à medida que as instituições dentro das quais vivemos se tornam mais gerais e mais complexamente relacionadas ligadas entre si. Para Mills, “ter consciência da ideia da estrutura social e utilizá-la com sensibilidade é ser capaz de identificar as ligações entre uma grande variedade de ambientes em pequena escala”.(Mills, p.17)

De um ponto de vista mais amplo, o autor explica a tendência ao comportamento apolítico, problema fundamental da sociedade de massa, produto da ausência de consciência de valores sociais que, cuja ameaça, quando ocorre, não é percebida.

A adoção da imaginação sociológica como parte do método de análise de funcionamento das organizações, estruturas organizacionais, modelos de gestão e liderança contribuiria, a meu ver, com maior densidade e perspectiva. Mais ainda, daria sustentação às posições político-sociais, nos diferentes domínios em que essas ações podem ser exercidas. Conforme dito pelo autor, “dominar o método e a teoria é tornar-se um pensador consciente de si, um homem que trabalha e tem consciência das suposições e implicações do que pretende fazer. Ser dominado pelo método é simplesmente ser impedido de trabalhar, de tentar, ou seja, de descobrir alguma coisa que esteja acontecendo no mundo.” (Mills, p.133)

MILLS, C. Wright. A Imaginação Sociológica, Rio de Janeiro. Zahar, 1982.

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Cristina Panella é Consultora Associada Senior BMI Blue Management Institute

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